27 janeiro, 2005

Colónia de Férias 2004

Convidados para uma reunião na Junta de Freguesia da Vila de Rabo de Peixe mal sabíamos o que nos esperava - organizar uma Colónia de Férias para cerca de 90 crianças carenciadas de Rabo de Peixe, provenientes do Bairro de São Sebastião, Bairro do Caranguejo, Bairro dos Pescadores e Alameda do Bom Jesus.
No início, a grande maioria dos presentes foi apanhada de surpresa mas, com os discursos convincentes e persuasivos dos padres jesuítas (Paulo Teia e Hermínio Trigueiros), a "coisa" foi ganhando ânimo. Como sempre, alguma "ovelhas negras" descartaram a hipótese de integrar o grupo escolhido, alegando razões que, no entender da maioria, não passavam de desculpas esfarrapadas. Terminada a reunião, vimo-nos envolvidos num verdadeiro cabo de trabalhos, pois a logística tinha ficado à responsabilidade dos elementos Carlos Estrela e Cláudio Terceira. Todos os restantes elementos também tinham ficado com tarefas bastante complicadas e de grande responsabilidade onde se destaca a fulcral importância dos elementos que passaram vários dias em permanente comunicação telefónica com os prováveis contribuintes económicos da colónia. Escusado será dizer que foi preciso choramingar muitíssimo para que "atirassem umas moedinhas para o chapéu das crianças". Revelo, sem qualquer equívoco, que a determinação e estatuto social do senhor Artur Martins foram factores insuplantáveis na recolha e "pedincha" de receitas. Também contamos com a presença, trabalho e disponibilidade de Eulália Brum, Luís Cordeiro, Cândida Correia, Carmen Amaral, Cesaltina Vieira, Victor Medeiros, Sidónia Gouveia, Jason Gouveia, Andrea Andrade, Angélica Martins, Bea, Carolina Viveiros e a menina Miranda. (desculpem-me se me esqueci de alguém). Todos os nomes referidos identificam o grupo de monitores de Rabo de Peixe.
Muitas adversidades se nos opuseram, bastando referir algumas para que fiquemos com uma pequena imagem das dificuldades ultrapassadas.
1.º Inicialmente tinhamos a confirmação de um autocarro da Câmara Municipal de Ribeira Grande que, ficaria com a missão de transportar todas as crianças(ida e volta)entre Rabo de Peixe e Capelas, onde se situava o nosso quartel general de acolhimento - a Escola Profissional de Capelas. Mais tarde verificamos que deram o dito pelo não dito, alegando que a "camineta" estava mal de travões. E agora...como resolver essa situação? Fizemo-nos à estrada e toca a pedinchar a A-B e C para que nos emprestassem carrinhas de 9 lugares. Alugamos a Carrinha do Clube atlético, pela qual pagamos 250.00 euros, tivemos, de borla, a carrinha da Associação "Crescer em Confiança", também a Escola Profissional de Ribeira Grande nos dispôs a sua carrinha, contamos com a carrinha do OASA e, finalmente alugamos uma carrinha que nos custou uma pipa de massa (+/- 2000.00 euros). Como calculam, esses meios de transporte eram insuficientes para 90 crianças mais monitores! Faltava-nos uma carrinha que havia sido disponibilizada pelo presidente do Clube Desportivo de Rabo de Peixe. O que aconteceu?
2.º Tivemos a carrinha da dito clube durante dois dias, sendo posteriormente reclamada. Porque razão isso se passou? A nossa amiga Sidónia passou dois dias de intensa musculação "volantelar" porque, direcção assistida era coisa que não havia na "Traffic". Apanhou, também, uma valente constipação, pois não existia vidro do lado oposto ao do condutor e, ainda por cima, o tubo de escape estava solto. Portanto, a uma distância de 2 Km já sabíamos que carro vinha a descer a rua do Rosário. Era a Sidónia co-pilotada pela Andrea, envolvidas num autêntico frenesim sonoro causado pelo ensurdecedor escape. Perante tanto desamanho, o senhor Artur achou por bem reparar as anomalias da carrinha para que não houvesse mais incidentes. Assim se procedeu. No dia seguinte à reparação apareceu alguém armado em verdadeiro carapau de corrida a exigir a devolução do automóvel, rompendo um acordo que havia sido firmado com pessoas sérias. Os mais rebeldes insurgiram-se prontamente mas, a preserverança e condescendência de uma maioria acedeu à insolência. Acho que não é preciso dizer quem pagou a conta da reparação!
3.º Tinhamos a confirmação do senhor Jorge Pinheiro (Presidente do Conselho Executivo da Escola de Capelas), para a utilização antecipada do pavilhão desportivo- local onde pernoitariam os nossos amigos monitores que viriam do continente para participar na colónia . No entanto, chegados ao local e pedindo, educadamente, a chave e permissão para entrar no aludido pavilhão, fomos confrontados com a inutilidade, arrogância, labreguice, ignorância, estupidez, irracionalidade, burrice, camelice, idiotice e imbecilidade de uma funcionária dos serviços administrativos da escola que, por sinal, era a que estava a substituir a chefe dos mesmos serviços. Tratou-nos abaixo de cão, se calhar pensou que todos seríamos do seu nível. Tenho pena de não me recordar do seu triste nome. Pedi à senhora a chave do pavilhão desportivo, ao que ela me respondeu que "não havia nenhum pavilhão desportivo, apenas o ginásio e que se fosse para jogar futebol poderiamos ir embora porque estavam de férias". Mas não será o nome pavilhão desportivo sinónimo de ginásio? Tentei explicar o motivo que lá nos levava mas, a estúpida de merda (desculpem-me a expressão) continuava a insistir no seu irracionalismo contundente. Não sei onde arranjei tanta contenção, estava a ver que lhe batia. Finalmente telefonei ao senhor Pinheiro a avisar da nossa presença, pelo que rapidamente nos entregaram a abençoada chave!
4.º Fomos buscar os nossos amigos ao aeroporto, transportamo-los para o Convento da Esperança(onde pernoitaram durante 2/3 dias) e começamos a pôr em prática o plano de reconhecimento/passeio da ilha de S. Miguel, que haviamos desenhado. De entre várias etapas, combinamos um cozido nas Furnas. Todos adoraram o passeio, a comida e o óptimo mergulho que deram nas límpidas águas da Baía da Caloura. O que nunca souberam foi o imenso trabalho voluntário que tivemos para pôr em prática esse dia. Alguns talhantes locais tinham prometido carne, morcela e chouriços para o banquete e, depois recusaram a oferta. Algumas pessoas tinham dito que nos disponibilizavam tachos e panelas e, depois já não tinham nada disso. Ultrapassadas esses contratempos, eu e o Cláudio levantamo-nos pelas 5 da matina para ir enterrar os tachos. Lá chegados, aproveitando a escuridão entramos com a carrinha numa zona interdita a comuns visitantes. Ouvimos, do meio da escuridão uma voz que nos disse: "não podem trazer carro para aqui!". Bem, ficamos psicológicamente gelados mas, uma conversinha com o senhor, mais um conhecimento e uma nota de dez euros harmonizaram toda a situação. O senhor quase que nos "beijou os pés", agradacendo a nossa aparição...ou terá sido a aparição dos 10 euros? Pois, bem me pareceu que ele gostou mais do dinheiro, até nos escolheu os melhores buracos subterrâneos para a cozedura, vejam lá!
5.º Também tivemos um passeio colectivo ao Aquaparque de Vila Franca Do Campo. Foi um dia estrondoso onde ficamos a ver a total energia que milita nos corpos das crianças de Rabo de Peixe. Fizeram tantas diabruras, tantas mesmo que, os vigilantes do aquaparque desistiram de os vigiar. Era frequente ouvir "óh menino saia daí", "não pode ir para aí", "só podem ir três numa boia", mas a saga continuava e a alegria que aqueles rostos transpareciam era qualquer coisa de inimaginável. Estavam satisfeitíssimos da vida! Para muitos era a melhor prenda que algum dia tinham recebido. O que me provocou alguns sorrisos causais foi assistir às minuciosas preparações de rectaguarda para o banho no mesmo aquaparque. A maioria estava muito preocupada. Como iriam segurar 90 "bichos" irrequietamente saltitantes? desenvolveram-se várias estratégias em que: "tu mais tu mais tu, ficam com o primeiro escalão e assim sucessivamente para os restantes escalões. No meu mais profundo conhecimento do grupo e categorias etárias em questão, sabia que tanto zelo não iria dar em nada. Não era necessária tanta cerimónia, pois qualquer "filho de peixe sabe nadar" e que, uma vez dentro de água não dariam ouvidos a nada nem ninguém. Estariam no seu meio, donos do seu ser e conhecedores da sua importância pessoal. Correu tudo às mil maravilhas. Nem um arranhão, nenhum pé, braço ou perna partidos, enfim, o coroar glorioso de tanto esforço.
Quem quiser consultar a página e fotos anexas da colónia poderá aceder em:
Também podem consultar o artigo da nossa amiga Carolina Viveiros que foi publicado na revista "Açorianíssima" em Dezembro de 2004.
P.S. Existirão próximos capítulos, sobre a colónia, aqui no frontalidades!