10 janeiro, 2005

Uma Empatia Televisiva.

Ontem pelas 20:00 horas, estava eu a passear mais a minha namorada pelas lojas do parque atlântico, quando decidi entrar numa especializada loja de material informático, electrodomésticos e electrónica em geral. Corredor atrás de corredor, máquina atrás de máquina e lá ia eu apreciando os últimos gritos das novas tecnologias. Muitos compradores apressavam-se em comparar preços, enquanto que outros apenas estavam interessados no “produto” que a vasta linha de televisores transmitia. Lá do alto das prateleiras algo chamava a atenção dos transeuntes. À primeira vista parecia tudo normalíssimo, mas algo doce e imperdível continuava a aspirar o olhar dos ditos machos latinos. Não havia ninguém a gritar com ninguém, nada de atropelos e até mesmo os empregados da loja estavam num dia de “relax” visual. Por ser muito curioso, comecei a observar um estranho ajuntamento que se fazia sentir em frente aos mesmos televisores. Homens e rapazolas quase se acotovelavam para garantir o melhor lugar da plateia. Era uma oportunidade única.
Deveras intrigado com a situação, levantei o meu olhar e percebi o porquê de tanto alarido…estava a passar, num canal de música, um vídeo-clip em que as actrizes se apresentavam em trajes extremamente reduzidos. O palco da encenação era um ginásio onde as praticantes se exibiam ao mais alto nível. Corpos bem trabalhados, contorcionismos a roçar o capítulo da sedução barata e, enfim, centenas de olhos saltitantes que seguiam atentamente todo esse espectáculo mergulhado num quase perfeito acto de erotismo. Fica a questão: o que queriam mostrar no clip…a qualidade da música ou as performances oportunamente irracionais das intérpretes leoas?
Facto curioso foi ver que, as mulheres dos embevecidos seguidores do clip continuaram a vasculhar a loja. Continuaram a agir como nada se estivesse a passar. Continuaram a esconder que não estavam interessadas em ver o que se passava, como se estivessem a esconder uma suposta vergonha que era ver o clip. Se calhar algumas diziam interiormente “que escândalo, não deveriam passar isto a essas horas.” Ora, o problema está precisamente aí. Muitas das mulheres açorianas e não só, continuam presas a valores que, no seu íntimo, desprezam inúmeras vezes. Muitas até gostariam de experimentar tais “acrobacias”, no entanto sentem, sobre si, o peso de uma sociedade, em que tudo o que seja inovador e propiciador de desinibição é votado à vergonha contida. Muitas delas continuam contrariadas nas suas acções, pois sabem, através de revistas da especialidade e outros meios que, a rotina erótico-sexual em nada contribui para os bons desempenhos conjugais. Elas têm essa noção, mas preferem guardá-la só para si, não a querem exteriorizar. Têm vergonha, porque as suas raízes culturais, apesar de ultrapassadas à luz das sociedades mais desenvolvidas, continuam a nortear a sua vida. Repare-se que essas opiniões não são estandardizáveis a todas as mulheres, nem a todas as gerações.
À parte de toda essa discorrência, sou da opinião de que, esses mesmos estabelecimentos comerciais deveriam proporcionar a todos os clientes condições mínimas de conforto. Acho que deveriam colocar em frente às suas exposições uma ou outra cadeira, bem como algumas poltronas para deleite dos mais interessados em ver televisão gratuitamente. Se não for muito exagerado, quem sabe se também não poderiam servir um café acompanhado de bolachas para toda a gente!!! Brincadeira...né!!!