Amigos e conhecidos leitores, já decidi. Não vou fazer parte da equipa oficial do O.G.N.C, mais conhecido por projecto EFTA. A comunicação oficial ainda não foi difundida, no entanto tenho a certeza que todos os intervenientes no obscuro processo já a conhecem. Declaro que não tomei essa decisão de ânimo leve, pois sempre foi pretensão pessoal fazer parte de um instrumento de mudança que fosse capaz de revolucionar, pela positiva, a Vila de Rabo de Peixe. Basta ver o pendor académico que sempre emprestei às questões directamente relacionadas com a Vila. Encoberto por um Dejá Vu, conhecido dos mais diligentes rabopeixenses, o O.G.N.C caminhará, certamente, para um labirinto onde, nem os mais francos intervenientes, terão a erudição necessária à suplantação das adversidades impostas (veja-se o caso de outros projectos que começaram da mesma maneira). Oxalá não se afundem no erro pecaminoso de terem preterido, inicialmente, quem tinha interesses e vocações firmados. Rabo de Peixe é um mundo à parte de todos os que já foram intervencionados por semelhantes medidas. Não pode nem deve ser alvo daquilo que chamamos "chapa cinco". Existem particularidades a respeitar, a integrar e a prosperar. Existem meios que, para serem penetrados com exequibilidade, objectividade e racionalidade, necessitam de uma mão conhecedora. Muitas das nervuras sociais que lá se encontram são hipersensíveis e envolvem um enormíssimo contexto plurifactual onde todas elas se encontram e divergem. Muitos factos e/ou fenómenos sociais lá existentes são únicos na sua sócio-morfologia, devendo tal peculiar revestimento a todos os agentes sociais que agem, quase que, de uma forma mecânica e (in)consciente. Não alvitro para criar, aqui, um ambiente apocalíptico, comento com o conhecimento de causas que fui adquirindo ao longo de muitos anos de recolha e percepção de vivências. Não tenho muita experiência profissional, mas da social, tenho mais que muita. Nos últimos 16 meses trabalhei com as partições sócio-habitacionais de maior sensibilidade e carência de Rabo de Peixe. Também elaborei muitos diagnósticos e verifiquei in loco os verdadeiros estados da indigência humana. Como diria o meu professor Dr. Octávio de Medeiros, vi o rosto da pobreza e da precaridade extremadas. Vi casas onde, tanto o contador de luz, como o de água não existiam, depreendendo-se que não tinham nem água nem luz. Vi casas onde, em pleno Verão, crianças dormiam na mais profunda exiguidade do espaço-habitação, cobertas de moscas e expostas a um ar total irrespirável. Vi casas onde, numa cozinha, o chão servia de mesa e os esgotos encontravam-se em constante respiração por uma abertura situada mesmo por debaixo da "mesa". Vi uma garagem que servia de habitação onde, no mesmo berço, dormiam quatro crianças, sendo o pai desempregado de longa duração, a mãe doméstica e os subsídios do Estado como única fonte de rendimento. Querem saber mais? Se quiserem, tenho mais casos. Senhores do O.G.N.C., não se esqueçam de envolver a população nesse processo de reabilitação/construção. Os rabopeixenses têm de sentir essas intervenções a correrem-lhes nas veias, pois só assim aprenderão a respeitar tudo o que por eles se fará e se tem vindo a fazer. Por vezes, criar é muito fácil, o mais difícil é manter. Em muitos casos, o cepticismo é a melhor arma para combater algumas desilusões. Todavia, demito-me de qualquer responsabilidade para a qual seja chamado, pois, agora, de fora, prefiro ser como Manuel Ferreira - "Alto como as estrelas, livre como o vento".
Carlos Estrela