21 março, 2005

Martinica a Nú

Indo ao encontro das expectativas do nosso amigo Nuno Barata, confirmo que a Martinica não corresponde, totalmente, às imagens que são vendidas pelas agências de viagens. É habitada por um povo que ainda se tenta libertar das amarras da escravatura, como também das pesadas restrições políticas e económicas impostas pelo Berço da Democracia. Ainda subsistem, felizmente, alguns traços culturais que nem mesmo a "ditadura" do desenvolvimento conseguiu abolir, estando a riquíssima variedade gastronómica e o luxuriante folclore - manifestos bastiões das tradições crioulas - bem presentes no dia-a-dia martiniquense. Fazendo um breve incursão pela capital da ilha, Fort du France, consegue-se apreender grande parte da amálgama sócio-económica que caracteriza as vias de desenvolvimento locais. A começar pelo aeroporto, o "turista" é submetido à escolha de: autocarros públicos verdadeiramente obsoletos; táxis que quase nos levam "os olhos da cara" e carros de aluguer que se encaixam no modelo europeu de tarifários. Em redor do coração da capital, continuam a crescer alguns prédios destinados ao albergamento das elites locais, bem como de alguns capitalistas estrangeiros que escolhem o lugar para aquisição de habitações de veraneio. É um verdadeiro luxo andar nos condomínios privados, observar o vaivém de viaturas topo de gama, onde o único sinal de semelhança com as sucatas ambulantes dos locais é o 972 na chapa de matrícula. A discrepância em termos de índices de conforto é abissal e, nem mesmo a restauração e os espaços diversão nocturna são alheios às diferenças nos bolsos de cada um. Não raro, são observadas esplanadas repletas de turistas, grelhadores a fumegar, cerveja à distância de um pedido e, como não podia deixar de ser, os pretinhos passam ao lado, cheiram, vêem, põem a mão no bolso e perdem a vontade de comer e beber. É uma triste sina não poder compartilhar das "vantagens" que são proporcionadas pelo turismo. Nos Açores isto ainda não se passa, pois podemos comer, beber e desfrutar de tudo aquilo que é oferecido ao nosso turismo de pelintrice. Aliás, qualquer um de nós pode ir a um centro comercial, fazer umas comprinhas, depois seguir para o quarto de hotel e banquetear-se com o resultado de míseros euros. Comprar uma simples Lorraine (cerveja produzida na martinica), é uma tarefa que requer, no mínimo, entre 2 a 2 euros e meio. Se a Especial custasse 2 euros num estabelecimento comum, a Melo Abreu, certamente, não estaria em vias de passar para as mãos de açorianos. Quem se queixa das estradas que temos, cá na ilha, poderia ir ver as da Martinica. Qualquer um ficaria assustado com o estado de conservação das mesmas. Fiquei com a impressão de que os buracos são adereços a conservar logo, quantos maiores forem melhor. Nas estradas existem muitas placas com a seguinte inscrição: " O Concelho Geral Moderniza", o que na nossa realidade corresponderia a outros tipos de publicidades baratas. A diferença é que, por cá, sempre se faz alguma coisa enquanto que lá nem por isso. Apesar de haver uma biodiversidade incomparável, nota-se alguma negligência e descuido no que respeita ao cuidado a ter com a paisagem arbórea e florícola. As plantas nascem e crescem espontâneamente, colibris abundam em qualquer jardim, mas continua a faltar o cuidado que a mão humana empresta à exuberância das espécies. Paralelamente a essa natureza viva, aliás, bem presente nas imediações das calorosas praias das costas da ilha, cultivam-se intermináveis extensões de cana-de-açúcar e produzem-se toneladas de banana, destinadas à exportação. Ironicamente, o trabalho nos campos é "escondido" dos turistas. Porquê? Porque ainda subsistem alguns filamentos de servidão, em que centenas e centenas de homens e mulheres se levantam pelas quatro da manhã, agarram nas foices e lançam-se em mais um dia de trabalho em prol da sua sobrevivência. O turismo da Martinica é um turismo de praia, que passa muito ao largo dos reais problemas daquela população e nem sequer se envolve na preservação dos ecossistemas locais. Visitei uma associação ambientalista denominada de AMEPAS e verifiquei que o seu presidente, Moïse Loumengo, funcionário do serviço de finanças local, defende com unhas e dentes as "salines". As salines são um conjunto de praias de areia branca repletas de coqueiros e palmeiras que se estendem ao longo de vários kms. Contou-me que travou uma luta com empresários locais durante 10 anos, porque os capitalistas queriam avançar com um projecto de construção de condomínios de luxo, uma marina, aeródromo particular, isto tudo sobre uma reserva ambiental. Nesta mesma conversa, levantou uma questão muito pertinente: " se os países ricos, abastados em meios financeiros, não conseguem proteger os seus recursos, como conseguirão os pobres defender os seus mais valiosos bens"? Porém, segredou-nos que o presidente da Câmara de Sainte-Anne também é um ambientalista ferrenho e enquanto presidir à autarquia, jamais abdicará das "suas salinas". Seria bom se tivéssemos muitos presidentes desse calibre. Quem quiser ir à Martinica, poderá contar com a simpatia, amizade, simplicidade e sentido hospitaleiro dos locais, pois foi isso que eu tive a oportunidade de ver e sentir. Não se esqueçam de levar um repelente para os insectos e muitos euros para gastar.