29 abril, 2005

Em nome de ECCE HOMMO

Fico indignado, até mesmo horrorizado, com muitas manifestações de fé e sacrifício durante as festas do Senhor Santo Cristo. De vários pontos de globo, principalmente da diáspora, estendem-se corredores de promessas onde, cada um à sua maneira, tenta "pagar" ao Divino toda a ajuda prestada. Longos dias de espera e grandes poupanças durante um ou mais anos atingem o auge quando se toca no antigo Campo de São Francisco. A roda do convento não pára um minuto. A entrega de crianças aos cuidados das freiras, deu lugar ao "comércio" de velas, terços e imagens do Senhor. Movidos pela religiosidade, muitos crentes oferecem os ombros para carregarem centenas de kg de cera, enquanto que outros, na sua maneira de encarar a festa, vestem-se a preceito para se perfilarem na passerelle das vaidades. A fé e a ostentação confundem-se por entre lágrimas, suspiros e sorrisos desguarnecidos que convidam as objectivas electrónicas. Sou católico e defendo que cada qual tem o direito de se manifestar de acordo com as suas convicções e orientações várias. Portanto, ou por fé, ou por vaidade, todos têm o seu lugar de intervenção e exibição nessas celebrações. Quando olho para joelhos e pés ensanguentados de muitos "pagadores de promessas", questiono-me acerca das suas necessidades. Será que vale a pena sujeitarem-se a tanta flagelação? Será que se sentem mais responsáveis por cumprirem uma promessa? Será que não existem outras formas de se agradecer à Divindade? Será que, a única forma de se retribuir um "favor" é mergulhar na dor física e psicológica? Cada um escolhe um meio para atingir um fim. Respeito a maneira “calvariosa” que muitos elegem para se redimirem ante o Magnífico. No entanto, não posso concordar com o extremismo das situações. Concordo que, para muitos cristãos, a dor é o veículo máximo escolhido para se dizer obrigado a Deus. Acredito que outros acreditam na sua absolvição através da dor. Mas, será que, na sua mais alta imponência, um Deus quererá cobrar o sofrimento humano como forma de solver um “compromisso”? Quem cumpre uma promessa dolorosa para com o sobrenatural, certamente estará em condições de responder a isso. Muitos dizem-me…”tens essa opinião, porque nunca passaste por situações aflitivas”. Até posso concordar, talvez dar o benefício da dúvida.
Por falar em benefício da dúvida, dizem que é a maior imperfeição criada pelo homem.